# Dançando na chuva.

Estava vagando sem ter um caminho em mente, quando portas se abriram ao meu redor, mas eu não sabia o que fazer. Pessoas saíram de trás das portas, querendo dizer coisas que eu não entendia, e por isso, corri o mais rápido que pude, mas sempre como o previsto pela mente humana, tropecei e eles chegaram mais perto. Elas estavam cobertas com capas de chuvas, mas não estava a chover. Então procurei me acalmar, e toquei o rosto de uma daquelas pessoas, era frio, não havia cor nele. Ao repararem que eu estava faminto de atenção, eles me levaram até um pequeno vilarejo, onde eles me alimentaram com o prazer de um amigo, com um abraço sem  malícia. Embora estivesse correndo tudo bem, surgiu uma pessoa em meu horizonte, que sua aparência era muito mais amigável, com cabelos ruivos, com um rosto coberto com um toque de pó, um batom vermelho. Não perdi tempo, realmente era o que eu queria, além de toda aquela atenção, e logo as outras pessoas me compreenderam. Corri, mas desta vez eu não tropecei em galho nenhum, mas parecia que ela se distanciava cada vez mais, uma coisa estranha para se pensar, meu maior desejo se voltando contra mim. Quando olhei ao meu redor, já não sabia onde estava, e não conseguia lembrar da face dos meus amigos que estavam a me esperar - ou apenas achava que estavam.
Achei um pedaço de graveto no chão, e comecei a me chicotear com aquilo, queria retirar a dor que havia dentro de mim. Não era uma medida desesperada, depois de já ter perdido tudo, e todos. Ganhei outros amigos; pássaros, cobras, veados. Mas nunca consegui me comunicar com eles, tudo se tornava insignificante. Não sabendo onde estava, caminhava em círculos, buscando uma luz no final do túnel, olhei para os lados, para o chão, mas quando olhei para o céu eu encontrei o que procurava. Luz.
Uma luz mais forte do que já imaginava, talvez ela fosse me curar, não demorou muito e lá estava ela me queimando da cabeça aos pés. Vi um reflexo ao longe, era meu corpo, minha cabeça, e fui me aproximando, vi meus cabelos compridos, minha barba mal feita, e ao lado, uma pequena cabana. Me escondi de mim mesmo, tranquei as portas, sem pensar no que me esperava do lado de dentro. Então simplesmente me abracei com medo do amanhã não existir mais, um pequeno adjetivo naquele momento, mas muito apavorante. Lá dentro existia mais um espelho, do qual não podia ser tocado, não mostrava meu reflexo, minhas mãos estavam desaparecendo, já era possível enxergar através delas, reparei uma banheira no canto completamente suja, mas com uma mensagem: - Estou aqui -, escrita com letras vermelhas aparentemente com sangue de carneiro. Comecei a enchê-la, um pouco de água do riacho, um pouco de minhas lágrimas, e pouco a pouco a borda da banheira estava transbordando. Conseguia apenas sentir o cheiro umido da chuva que estava caindo quase imperceptível do lado de fora, então não senti minha cabeça afundando em uma banheira, vi o chão se transformando em água, e eu apenas afundando junto com a banheira. Era meu fim.
Quando acordei assustado, depois de estar desmaiado com água nos pulmões, corri para o lado de fora, e vi uma porta do tamanho das árvores, não perdi tempo e fui correndo à ela, então como num passe de mágica, vi uma pessoa correndo de mim, e de outras pessoas ao redor, eu gritava: - NÃO CORRA, QUEREMOS AJUDAR! -, mas nossa fala era confundida com a dos pássaros, então, a pessoa se libertou e me tocou, senti o que eu havia feito com a outra pessoa, e levei-a para nossas casas, estavam com poeira do lado de dentro; em nossos móveis rústicos. Mas simplesmente ela fugiu de nós, como um gesto de ingratidão, infelizmente não pudemos fazer nada. Ela estava decidida.
Nós queríamos ajuda, apenas ajuda para nos libertar da floresta. Eu estava com uma lona preta, parecida com uma capa de chuva.
Sei o que é sentir a dor persuadindo sobre minhas pálpebras.