# Você!

Tão misteriosa,
sorri.
E é sempre
muito generosa.
Parece falar
em silêncio
E ouço ecoar
Suas vozes
na minha cabeça.
Você desaparece
tento te esquecer
mas você é forte
e reaparece
para que
não te esqueça.
Mesmo estando aqui
Ao meu lado
Saudade vai,
saudade vem
Você mora aqui
Porém,
longe de mim.
Sem te tocar
sinto seus braços
entrelaçando minhas costas.
O cheiro
do seu perfume
trafegando
minhas narinas,
seu gosto em meu paladar.
Seu jeito de andar.
Você não sai de mim,
e não adianta negar.

# Provas de 1 crime (Pt. 4)

A imagem de sua esposa se deitando lhe vinha na cabeça. Ela se deitando lentamente, apoiada pelo braço encostado em um dos travesseiros da cama. Ela se levantando devagar, ela sorrindo em câmera lenta, o som das risadas ecoavam dentro do quarto, e ela estava vestida a rigor para aquela noite. Uma camisola bem solta, com as costas nuas, vermelha sangue. Sua calcinha era vermelha também, havia um laço do lado direito e outro do lado esquerdo. Ela era linda, adorável.
Naquele tempo cuidava da parte administrativa da loja de departamentos, então era quase obrigado a se vestir bem. Pelo menos, servir de exemplo para aqueles que gostariam de sair daquele trabalho braçal e ocupar seu cargo. Seu sonho era ocupar a gerência da mesma, quem dera, um jovem de seus vinte e cinco anos ocupando a gerência de uma loja de departamentos com mais de vinte mil itens. Embora parecesse impossível um líder com essa idade, ele era sempre prendado e atencioso a tudo que acontecia por ali, um forte candidato.
Naquele dia o trabalho era mais puxado, havia chegado algumas mercadorias novas no departamento, algumas notas deviam ser dado baixa, ele sabia o que fazer, então, puxou sua cadeira de rodinhas, colocou a papelada sobre a mesa, e começou a mexer naquele computador empoeirado, aquele teclado duro que muitas vezes não dava o controle para que o caractere aparece na tela do computador. Sempre mais papeis apareciam sobre a mesa. Tratava de algumas dívidas da loja também, então ele sabia como estava a situação financeira da mesma, que aliás, estava em perfeito estado.
Começava a escurecer as seis horas, nesse tempo todo, Enrico já estava exausto daquele esforço. Prestar atenção nos numerais, aguentar o falatório do chefe ao seu ouvido pedindo agilidade. Ele não sabia a dificuldade que era usar um teclado daqueles. Não via a hora de subir de cargo, pelo menos não passaria por mais aqueles descasos, estava enfatizado.
Eram cinco horas e dez minutos, faltava pouco para ir para a casa. Se levantou, foi até a sacada, acendeu um cigarro e fechou os olhos, tragando com vontade para que aqueles minutos passassem mais rápido. Então, voltando a sua posição, terminou o seu trabalho, e chegou até a não se despedir do chefe, pegou sua bolsa, e foi embora dali.
Foi naquele dia então que pegou seu automóvel, o deixou na garagem, e como já era o esperado, caminhou até aquele bar. O mesmo bar desde quando começou a trabalhar. Porém, hoje ele precisava de uma coisa a mais, talvez uma dose a mais, talvez duas, talvez três doses. E foi assim mesmo que acontecera. As mesas do bar eram de madeira, uma tábua retangular envernizada, já haviam algumas marcas d'água dos copos sobre a mesa, então as garçonetes serviam os copos com um guardanapo sob eles, para evitar que acontecesse essas marcas indesejáveis. Os guardanapos que estavam sendo postos sob os copos de Enrico guardavam informações como o numero de telefone e nome das garçonetes. A cada pedido, um nome e numero diferente. Ele estava ficando bêbado, cansado, então, com todos aqueles guardanapos sobre a mesa, se levantou meio tonto, já havia deixado ali uma quantia razoável de dinheiro por causa das bebidas, então, tropeçando ainda mais em suas pernas, foi até em casa, mas não conseguiu fazer tanto silêncio. Estava exausto, então, não queria conversa com ninguém, foi até o banheiro, levantou as pressas a tanta do vaso sanitário e começou a vomitar. Se limpou e começou a ouvir uma bronca de Alisson, ela já sabia que bebia, mas nunca havia chegado a esse ponto. Ele estava esgotado, mas ela disposta a iniciar uma briga. Falava alto, dizia que assim não conseguiria continuar, começou então a chamá-lo de bêbado, alcoólatra, então, fez com que ele perdesse o pouco de paciência que lhe restava. Deu-lhe um tapa no rosto, e o olhou nos fundos dos seus olhos. Ele estava feroz, não suportara a ideia de que uma mulher o batesse, por mais que soubesse que estava errado, ele então devolveu o tapa. Sua mão era um pouco mais pesada, Alisson sentiu o tapa com mais peso, e para ela, aquilo havia sido a gota final.

# Provas de 1 crime (Pt. 3)

Ele então abre os olhos assustado, depois de acordar daquele sonho, mais uma vez ele leva a mão sobre a barriga de Alisson, e começa a cheirar seu cabelo. Um cheiro doce como cravo da índia, um creme que ela adorava passar sempre antes de dormir. Enrico beijava seu pescoço delicadamente, agradecendo por ela ainda estar ali.
— Onde está o meu whisky? Não encontro meu whisky — Procurava desesperadamente por sua garrafa de whisky doze anos.
As memorias vinham com o tempo, não conseguia deixá-las de lado...
O cheiro era fascinante, penetrava dentro da cabeça de Enrico, e não o deixava. Embora ele achasse que o sonho medonho que havia tido teria acabado, quanto mais ele cheirava aquele doce cabelo, as mãos começavam a acariciar ainda mais o corpo, e acariciando, acariciando, sentiu sua mão um pouco úmida, um cheiro de ferro, era sangue, e quando afastou a mão, Alisson pedia: — Não me deixe amor!
Acordou do sonho que havia sonhado em outro sonho, então mais aliviado, se levantou. Viu que sua esposa não estava deitada ao seu lado, estava preparando o café da manhã. Entrou em outro banho, estava soado, a noite o deixou nervoso, e só aquele banho poderia acalmá-lo.
Cada passo o fazia lembrar do sonho, alguns pedaços de madeira de seu quarto rangiam de verdade, e o corredor, era um pouco frio, mas não muito. Desceu as escadas segurando no corrimão, viu Adam correndo pela casa enquanto Alisson gritava da cozinha para ele parar. Sorridente então, abraçou a esposa por trás, encostou a cabeça em seu ombro esquerdo, e a beijou com certa voracidade, vontade, alivio por ela ainda estar ali. Ela até achou um pouco estranho, era raríssimas as vezes que ele estava de bom humor quando acordara. Então, disse a ela o que havia sonhado, se sentando em uma das cadeiras da mesa de quatro lugares da cozinha. Pegando o suco, que tomava pela manhã, disse que ele havia matado-a em sem sonho, e que aquilo tinha o assustado.
Ela achou estranho, disse para que cortasse o remédio, ou que pelo menos, tomasse meio comprimido, afinal, o médico disse que haveriam efeitos colaterais. Suspeitaram logo que esse fora um desses efeitos.
Pegou seu suéter vinho, terminou de tomar mais um copo de suco, e pegou seu automóvel para ir ao trabalho mais um dia. Não entendia o porque da vida ser assim, só queria que as coisas ficassem perfeitas, com ele, e com sua família.

# Provas de 1 crime. (Pt. 2)

Enrico costumava-se lembrar das tardes em que ia tomar um drink no bar em uma rua próxima a sua antiga residência. Sempre após o trabalho, era uma rotina bem cansativa, e ele sempre aproveitara a situação para se desligar um pouco do mundo do trabalho.
O dono do bar, Johnny, não ia muito com sua cara, mas já que lhe trazia dinheiro a presença de Enrico, bom, aproveitava a presença dele. Enquanto isso, as garçonetes dali gostavam dele, um homem de cabelos negros, alto, sempre com seu cigarro na boca queimando e derrubando as cinzas em um cinzeiro de prata que ficava sobre as mesas. Não entendia muito bem o porque dos olhares das garçonetes direcionados a ele, embora ele soubesse que era um cara bonito, ele sempre se mostrou fiel a sua amada esposa.
— Uma dose de whisky por favor... Mais uma dose de whisky por favor. — Era a frase proferida de Enrico quando seu dia fora mais puxado. Já que andava a pé, não se importara de ir trombando em alguns postes, ou de ir tropeçando nas próprias pernas. Chegava em casa, já era noite, tomava um banho, e enquanto todos dormiam, às vezes se sentava para assistir um pouco de televisão até que voltasse sua lucidez.
Seu filho já estava deitado, e depois de umas duas ou três escovadas de dente, o cheiro já havia deixado-lhe, e podia então, beijar carinhosamente a sua testa, dando-lhe benção. Se levantava, caminhava até a porta, desligava as luzes - já que Adam ainda tinha medo do escuro -, e encostava-a, dando ali uma leve olhada para saber se tudo estava em ordem.
Chegando em seu quarto, cautelosamente para não acordá-la e se põe a deitar devagar, abraçando-a e pensando na sorte que tinha de possuir uma ótima família. Lembrando-se do seu remédio para dormir, abre uma das gavetas de seu criado-mudo, pega sua cartela de comprimidos, destaca dali um, e toma com uma saborosa golada de água. Adormece.
O remédio era ótimo, mas o médico que lhe indicara disse que poderia haver alguns efeitos colaterais, e que ficariam menos frequentes a medida que ele já se acostumara com o remédio. Um desses efeitos era praticamente o desmaio de sua mente, que permanecera ali sempre inquieta, ao tomar o remédio, se acalmara, acalmando o corpo principalmente. E embora a mente parecesse estar calma, alguns pesadelos o atormentavam pela madrugada. Ele só não conseguira acordar.
E justamente um desses pesadelos lhe pareceria mais real agora. No sonho ele se levantava de sua cama, o chão de madeira rangia ao pisar, e cada passo, seu ouvido escutava o agudo do vento soprando contra a fresta da janela, porém, com seus decibéis multiplicados em mil, duas mil, três mil vezes mais altos. Ele corria para o corredor onde o piso era um pouco mais resistente, escorregadio, mas resistente. Lá fazia silêncio, muito silêncio, a ponto de tornar o suspense até mais delicado e sublime. Ele não conseguira acordar, sua mente e seu corpo estavam sob o efeito do sonífero do remédio.
E caminhava, caminhava dentre as escadarias de sua casa, até passar pela televisão da sala que estava ligada, porém com o chiado de uma televisão sem antena nenhuma, se lembrou da lenda de poltergeist e do que aquilo significava. Caminhava até a cozinha, apunhalava então uma faca com o cabo de madeira maciço, uma herança de seu pai que ficava guardado dentro de uma das portas do armário antigo. Subiu os mesmos degraus da escada, passou pelo silêncio do corredor, ouviu os rangidos do piso que lhe atormentavam, mas tudo lhe fora silenciado com a imagem de um lindo assassinato. Facadas na região do tórax e barriga, o sangue que ali jorrava em sua camisa branca a tornando vermelha. E ela, ainda não estando morta, sorrindo com o sangue que escorria da sua boca...


# Provas de 1 crime.

Era uma manhã fria de inverno., e mais um dia Enrico acendeu seu cigarro e pegou uma xícara quente de café e se pôs a pensar nos problemas pessoais. Até então, nunca havia sentido sua crise dos vinte e poucos anos, mas lá estava ele, pensando, e pensando e pensando.  Seu trabalho, sua família, sua casa, tudo sendo ameaçado de um suposto suborno policial.
Tudo começou a alguns meses atrás, quando ele dirigia seu veículo em uma estrada isolada da cidade. Ficava próxima a uma grande floresta, e era comum o caso de acidentes por causa de pequenos animais que atravessavam em frente aos carros. Os policiais da região então já conheciam a região, era famosa, saia em grandes noticiários da região, e muitas vezes rodavam até em cidades vizinhas.
Todos tomavam um certo cuidado ao passar por ai, mas para sua sorte, aquele foi apenas mais um dia comum no caminho que o levava de volta do trabalho para casa.
Ele morava em uma cabana aconchegante, com uma grande lareira que sempre era acessa as seis horas, separado a mais ou menos um ano e meio da sua esposa Alisson, e seu filho, ainda um pouco novo, Adam, que não sabia de quase nada.
Se sentava mais um dia, com seu cigarro sempre no bolso esquerdo da camisa, era companheiro inseparável e fruto de tantas e tantas inspirações com um copo de whisky envelhecido ao lado do cinzeiro. Lembrava dos romances policiais que sua ex esposa adorava ler. Agatha Christie era sua escritora favorita, e um dos romances favoritos dela se chamava Cem Gramas de Centeio. Um suspense muito intrigante, e Enrico sempre desejou ser um grande escritor, como Agatha. Ele trabalhava em uma loja de departamento, seu salario não era alto, mas dava para se virar.
Já Alisson, vivia na cidade grande, havia arrumado um padastro para Adam, seu nome era Bryan, e juntos viviam bem, não precisavam pedir nada a ninguém, e Adam tinha um ótimo contato com seu pai biológico. Todos viviam muito bem, entretanto, algumas brigas do casal Alisson e Bryan, surgiam a partir do ciumes que Bryan tinha da situação. Bryan era um quarentão, aposentado, e Alisson acordava cedo para levar Adam até a escola. Ela cuidava de outras crianças também, enquanto outras mães trabalhavam. Adam sentia muito medo dos trovões e relâmpagos que caiam lá fora, e muitas vezes ia devagar até o quarto de seus pais  para dormir com eles. Bryan não gostava muito, mas era o que ele fazia desde pequeno quando chovia horrores na sua antiga casa, com seu pai verdadeiro, já Alisson vivia pedindo paciência, dizia que aquilo iria acabar um dia, enquanto isso, paciência...
Sei o que é sentir a dor persuadindo sobre minhas pálpebras.