E mais uma vez ele se levantava com sono da sua cama quente e confortável, atrasado para o trabalho mais um dia. E embora ele tivesse que se apressar, não fazia as coisas com tanta rapidez, acreditava sempre que a pressa era inimiga da perfeição, simplesmente ele passou a acreditar ainda mais, quando seu amor levou nove meses para nascer.
Desde pequeno sempre almejou ter boa vida, então deixou para trás toda mordomia e se entregou ao mundo. Desde os quatorze anos trabalhava, na mesma indústria, no mesmo cargo, com o mesmo salário. Sua mãe, uma mulher um pouco mais vulnerável, passava horas e horas limpando a casa dos vizinhos pela região para conseguir um pouco de dinheiro e colocar a comida na mesa. Já com dezesseis, ele estava crescido, tinha alguns amigos pela região, mas o contato era quase que impossível, uma vez que Marcos trabalhasse quase que 10h por dia. Ele gostava de ler contos um pouco mais clássicos do que os outros jovens, talvez ele não gostasse tanto das coisas mais "mastigadas", mas de verdade, ele tinha um grande dom, o de decifrar códigos imperceptíveis a olho nu.
A cada página de jornal que lhe era distribuído com algum entretenimento ele fazia música, poesia, contos. Imaginava aquelas lindas mulheres estampadas, contudo, sua mão pequena e suja, borrava aquelas páginas frágeis, precisava de algo a mais. Seu pão do dia a dia não era suficiente, ele queria crescer, investir em si próprio. Sua mãe sempre achou besteira, insistia que ele devia ficar onde estava, já que aquilo os alimentava, a vida simples era sinônimo de união e saúde.
Certo dia, lá estava ele, seguindo sua rotina mais um dia, quando um dos operários reparou que ele chegara atrasado, uns três minutos de diferença, e ele foi chamado até a sala do patrão, onde lá foi descontado o atraso. Não entendia como eram as leis que regiam o capitalismo, mas ele ainda procurava uma razão para não desistir, ele procurava um grande amor.
Havia uma menina, uma bela adolescente que morava a algumas casas da sua, de nome, Maria. Uma jovem morena, bonita. Seu sorriso era largo, sua voz soava como o ar que passa assoviando com rapidez em suas orelhas frias. Ele reparava em cada detalhe, até mesmo na fumaça quente que saia de sua garganta, de como os seus olhos prestavam atenção nos seus olhos, e de como as frases eram proferidas ao movimentar a língua e sua mandíbula, pra lá e pra cá. Ele realmente fixou-a em seu mural de expectativas e de desejos, até aqueles mais difíceis de ser alcançados, afinal, seu sonho era estar com ela, amá-la mais uma vez. Podendo tocá-la, abraçá-la.
Pensava sozinho: Beija-me, até secar-me toda saliva que umedece meus lábios, beija-me até calar todas as vozes que estão dentro de mim, beija-me, me dê um novo sentido, uma nova inspiração. E me faça dançar com suas sombras, me faça rir com as vozes tenebrosas que soam a noite dizendo que você é a mulher que eu sempre sonhei...