Enrico costumava-se lembrar das tardes em que ia tomar um drink no bar em uma rua próxima a sua antiga residência. Sempre após o trabalho, era uma rotina bem cansativa, e ele sempre aproveitara a situação para se desligar um pouco do mundo do trabalho.
O dono do bar, Johnny, não ia muito com sua cara, mas já que lhe trazia dinheiro a presença de Enrico, bom, aproveitava a presença dele. Enquanto isso, as garçonetes dali gostavam dele, um homem de cabelos negros, alto, sempre com seu cigarro na boca queimando e derrubando as cinzas em um cinzeiro de prata que ficava sobre as mesas. Não entendia muito bem o porque dos olhares das garçonetes direcionados a ele, embora ele soubesse que era um cara bonito, ele sempre se mostrou fiel a sua amada esposa.
— Uma dose de whisky por favor... Mais uma dose de whisky por favor. — Era a frase proferida de Enrico quando seu dia fora mais puxado. Já que andava a pé, não se importara de ir trombando em alguns postes, ou de ir tropeçando nas próprias pernas. Chegava em casa, já era noite, tomava um banho, e enquanto todos dormiam, às vezes se sentava para assistir um pouco de televisão até que voltasse sua lucidez.
Seu filho já estava deitado, e depois de umas duas ou três escovadas de dente, o cheiro já havia deixado-lhe, e podia então, beijar carinhosamente a sua testa, dando-lhe benção. Se levantava, caminhava até a porta, desligava as luzes - já que Adam ainda tinha medo do escuro -, e encostava-a, dando ali uma leve olhada para saber se tudo estava em ordem.
Chegando em seu quarto, cautelosamente para não acordá-la e se põe a deitar devagar, abraçando-a e pensando na sorte que tinha de possuir uma ótima família. Lembrando-se do seu remédio para dormir, abre uma das gavetas de seu criado-mudo, pega sua cartela de comprimidos, destaca dali um, e toma com uma saborosa golada de água. Adormece.
O remédio era ótimo, mas o médico que lhe indicara disse que poderia haver alguns efeitos colaterais, e que ficariam menos frequentes a medida que ele já se acostumara com o remédio. Um desses efeitos era praticamente o desmaio de sua mente, que permanecera ali sempre inquieta, ao tomar o remédio, se acalmara, acalmando o corpo principalmente. E embora a mente parecesse estar calma, alguns pesadelos o atormentavam pela madrugada. Ele só não conseguira acordar.
E justamente um desses pesadelos lhe pareceria mais real agora. No sonho ele se levantava de sua cama, o chão de madeira rangia ao pisar, e cada passo, seu ouvido escutava o agudo do vento soprando contra a fresta da janela, porém, com seus decibéis multiplicados em mil, duas mil, três mil vezes mais altos. Ele corria para o corredor onde o piso era um pouco mais resistente, escorregadio, mas resistente. Lá fazia silêncio, muito silêncio, a ponto de tornar o suspense até mais delicado e sublime. Ele não conseguira acordar, sua mente e seu corpo estavam sob o efeito do sonífero do remédio.
E caminhava, caminhava dentre as escadarias de sua casa, até passar pela televisão da sala que estava ligada, porém com o chiado de uma televisão sem antena nenhuma, se lembrou da lenda de poltergeist e do que aquilo significava. Caminhava até a cozinha, apunhalava então uma faca com o cabo de madeira maciço, uma herança de seu pai que ficava guardado dentro de uma das portas do armário antigo. Subiu os mesmos degraus da escada, passou pelo silêncio do corredor, ouviu os rangidos do piso que lhe atormentavam, mas tudo lhe fora silenciado com a imagem de um lindo assassinato. Facadas na região do tórax e barriga, o sangue que ali jorrava em sua camisa branca a tornando vermelha. E ela, ainda não estando morta, sorrindo com o sangue que escorria da sua boca...