# Medo do escuro (1ª Parte)

- Quando mamãe se foi, eu e papai se mudamos para outra cidade. Não queríamos que as mágoas ficassem junto a nós. Tudo bem que a casa era um pouco menor do que a de antes, mas conseguiria me adaptar com o passar do tempo. Na viagem vi a brisa tocando meu rosto e balançando meu cabelo, tudo caminhava bem na medida do possível. Estava somente dentro daquele carro, eu, papai, e minha boneca de porcelana - um presente que minha mãe me deu, alguns dias antes dela partir.
Papai me chamava de Emy, um apelido carinhoso que mamãe também me chamava. Meu verdadeiro nome é Emily Bakker, e sou ainda uma criança. Todas as noites, mamãe me trazia para a cama, e me contava uma história - tudo bem que na metade dela eu já estava dormindo -, mas era a unica coisa que me fazia adormecer. Não conseguia pensar como era a minha vida sem ela, e quando, com uma corda ela se enforcou, perdi a cabeça e a partir daí, começaram os traumas.
Como eu era muito nova, tudo ficou mais difícil. A terapia custava mais caro do que o normal, precisava de medicamentos para adormecer e conter as minhas lágrimas. Mas felizmente papai podia me dar a atenção que eu precisava. Foi quando eu fiz meu primeiro amigo imaginário...
A casa era antiga, sem muitos moveis modernos, e a maioria dos antigos, já estavam empoeirados. Uma televisão antiga sobre o chão, uma cadeira de balanço pintada a mão também estavam lá, num estado melhor do que os outros moveis. Então me sentei, e comecei a balançar, e a balançar ouvi o rangido da cadeira antiga, parecia que estava prestes a quebrar. Enquanto isso, papai foi tirar as coisas do carro, trouxe todas as caixas pesadas e colocou no meio da sala, impedindo a minha passagem para a escolha dos quartos. Papai era um doutor aposentado, Ralf é como ele se chama. Ralf Bakker, era médico cirurgião, que trabalha com antigüidades. As esculpia em madeira, e depois as vendia para um amigo dele de outra cidade.
Em uma caixa estava escrito: - Coisas da Rosie! Com letras rápidas mas delicadas. Devia ser algumas fotografias dela. A obsessão dele era notável, assim como as noites mal adormecidas dele, enquanto sonhava com os tempos dourados da formatura na faculdade, onde ele a conheceu. Ele havia trazido uma caixa grande, onde ele guardava alguns prazeres dele, como a bebida, alguns livros em branco para começar a escrever, e um grande fone que impedia ele de escutar o resto da casa. Quando tudo se apagou, ele se deitou em um dos quartos, e me deixou em um outro separado. Eu fui calada até o quarto, carregando em uma das mãos minha boneca de porcelana, e na outra, a mão dele. Ele me deitou igual a mamãe, me dei um singelo beijo na testa, e deixou a porta entre-aberta para a luz entrar. Me coloquei em baixo dos cobertores, virei para o canto, e adormeci.
No dia seguinte papai trouxe o café da manhã na cama, e me acordou. Demorei um pouco até acordar, mas quando o vi, abracei-o fortemente, para não deixá-lo escapar de meus braços. Dizia para ele que não podia viver sem ele e sem a mamãe, e pedi por favor que ele não me deixasse. A promessa foi a que eu mais esperava, ele prometeu não me deixar. Contei a ele meu sonho, um sonho meio estranho, onde eu conhecia uma pessoa que não mostrava seu rosto, com vergonha ou medo, mas pediu a mim um favor, e eu, no meu sonho, o cumpri.
Ralf: - E qual foi o sonho filhinha?- Perguntava o papai ansioso com o desfecho do meu sonho.
Emy: - Eu teria de desenhar mamãe. - Foi isso que fiz papai.
Ralf após o desfecho ficou mais tranqüilo, deu nas mãos da filha um copo de leite e algumas bolachas, e deixou na forma uma maçã. Quando se levantou, reparou que havia pisado na boneca da filha, e que havia quebrado-a. Quando se abaixou para pegá-la, olhou em baixo da cama, e viu os lápis de cera empurrados por ali, junto com uma folha de papel amassada, simplesmente deixou onde estava, e deu a má notícia a sua filha. Ela, às lágrimas, disse que o perdoava por ter quebrado a sua boneca preferida, e que já era tempo de abandonar mesmo aquela boneca.
Na hora do almoço, Ralf reparou que não havia trazido a comida congelada, e que era preciso comprar alguns pedaços de carne, então perguntou a Emy se queria o acompanha-lo. E ela aceitou. No caminho do mercado, Ralf para seu carro em um farol, e escuta Emy no banco de trás conversando com um amigo. Daniel era o nome dele que ela dizia baixinho, puxando algumas mechas de cabelo para trás da orelha. Ralf achava normal uma criança ter uma amizade imaginária depois do trauma, e aceitou tudo aquilo. Enquanto ele comprava os mantimentos para preparação da comida, ouviu Emy falando com um estranho, que também estava por perto. Com medo, correu até o local onde a filha se encontrava e deparou-se com uma linda mulher com uma criança um pouco mais velha do que Emy. Rachael era o nome da mãe, e Sophie o nome da filha dela. Ralf os cumprimentou, e disse desculpas pela desconfiança, e justificou dizendo que era novo na cidade. Eles trocaram telefones, e partiram até a fila do caixa. Ele se foi junto com Emy, e Rachael ficou logo atrás. Num outro farol, Rachael parou seu automóvel do lado do de Ralf, e ele abaixou a janela lateral e a gritou.
Ralf: - Gostaria de almoçar conosco hoje? Será um almoço simples, não sei cozinhar muito bem.
Rachael: - Não posso, meu marido me espera. Mas se não se importa, poderei levar Sophie para brincar com Emy.
Ralf não perdeu tempo e aceitou a proposta dela. Se despediu, e traçou o seu caminho. Ao chegar em casa, Emy foi sentando na mesa da cozinha a espera da comida, e Ralf foi para a cozinha. Fez o que pode, e colocou no prato da filha, e logo depois se sentou ao lado dela, e começou a comer também. Emy comeu tudo e Ralf só conseguia mexer na comida, estava sem fome depois de conhecer aquela moça. Foi quando eles ouviram a campainha, e Emy foi correndo abrir a porta. Era Sophie querendo brincar com ela no jardim. Emy perguntou ao pai se podia, e ele disse que sim, caminhando até a porta para avistar Rachael dentro do carro. Ele foi chegando mais perto para reparar se ela estava com o marido, mas viu que não, então, se aproximou e disse:
- Tudo bem deixá-la aqui, elas brincarão a tarde inteira.
Rachael disse:
- Tem certeza que não será um incomodo?
- Pode ter certeza que não-, Ralf afirmou.
Então Rachael ligou o carro, e engatou a marcha ré, e se foi.
Ralf disse para elas não brigarem e não irem longe, e elas obedeceram.
Enquanto isso, Ralf abriu uma das caixas, e tirou um aspirador de pó, e começou a limpeza. Limpou toda a casa, deixou-a arrumada para qualquer tipo de visita, e subiu para os quartos, para limpa-los também. Começou pelo seu, no qual estava menos bagunçado, arrumou sua cama de casal, e limpou o pó que havia no criado-mudo onde ele colocava seus livros. Quando terminou, passou a limpar o quarto de Emy. havia muitos brinquedos espalhados pelo chão, e foi recolhendo-os e colocando-os no canto, dentro de outra caixa vazia.
Foi passando o aspirador de pó até chegar perto da cama, olhou o papel e os lápis de cera no mesmo local, então os pegou, e repentinamente, ouviu um grito de uma das meninas. Então,  tratou de ir correndo ver o acontecido. não se importou com o desenho e o deixou esticado sobre a cama da menina.
Sophie havia caído, ralado os joelhos, mas estava praticamente bem, Ralf a pegou nos braços e a levou para dentro da casa, ligou para a mãe, e falou do acontecido. Ela logo chegou, preocupada com a sua filha, e perguntou o que havia acontecido. Emy disse que elas estavam brincando e elas ouviram um barulho estranho e começaram a correr para a casa com medo, foi então quando Sophie caiu, e papai já a pegou. Rachael reparou o curativo nos joelhos da menina, e disse apenas que acidentes acontecem. Ralf a ofereceu uma xícara de café, e ela aceitou, sentando-se sobre a cadeira com sua filha no colo. Todos nós conversamos por alguns minutos, e no olhar do relógio, Rachael viu que estava tarde, e decidiu partir. Ralf a levou até a porta do carro, e a cumprimentou com um beijo carinhoso, seguido do pedido de desculpas. Entrou para casa, levando Emy, e quando a pôs para deitar, viu melhor o desenho que ela havia feito.
Um desenho feito a mão, com o cabelo vermelho de sua mãe, como ela havia contado no sonho. Ele perguntou quem a havia desenhado, naquele papel amassado, e Emy disse apenas que não havia sido ela, e sim Daniel. Ralf então pegou o desenho, e levou ate a lareira da casa para queimá-lo. Enquanto via aquela recordação pegando fogo, encheu o copo com whisky e começou a beber loucamente, buscando esquecê-la. Não demorou muito para ver que Emy estava mentindo, mas simplesmente encarou como carência da mãe da parte da Emy. Se deitou no sofá, puxou um velho agasalho que serviu de cobertor, e adormeceu logo ali.
Quando o sol bateu nos seus olhos, ele acordou assustado não lembrando de nada, e viu o desenho da filha intacto sobre seu peito, olhou para o lado e se assustou, Emy estava ali com uma xícara quente de café, que com o susto, acabou derrubando-a da mão da filha. Ela então se afastou dizendo: - Cuidado! Poderia ter me queimado. O pai então disse perdão à ela, e se sentou encostando as costas no apoio do sofá, se perguntando como o desenho ainda estava ali, intacto. Emy, seguiu para a cozinha e pegou mais uma outra xícara de café, levou até o pai, caminhou até a cozinha novamente, pegou a vassoura e varreu a xícara quebrada no chão, jogou-a no lixo, e se sentou do lado de seu pai.
Ralf perguntou novamente se havia sido ela quem havia feito aquilo, e ela disse novamente que havia sido Daniel. A imagem de Rosie estava ali, como se fosse uma fotografia realmente, e desta vez, Ralf decidiu guardá-la num local seguro. Emy chegou perto de seus ouvidos e disse:
- A Sophie estava me contando que o papai dela também morreu papai, quem sabe vocês não podem se casar.
Ralf com uma cara de desconfiado perguntou:
- Então por que ela disse que o marido dela estava esperando-a?
- Sophie me disse que Rachael gostou tanto de você que ficou com vergonha e disse tudo aquilo.
Ralf soltou um sorriso sutil, e foi até a cozinha preparar o almoço novamente, e deixou Emy assistindo aquela televisão antiga. Ralf ficou pensando, pensando se poderia dar certo, mas deixou de pensar e se pôs a fazer o sustento da filha.
Sei o que é sentir a dor persuadindo sobre minhas pálpebras.